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Imagens na bruma

Lugares poéticos, com espaços reais e narrativas sugeridas ou inventadas.

Agrada-me a ideia de construção de um lugar poético onde se cruza o espaço real, percorrido por passos gestos e minutos, e um outro, invisível, marcado pelo pensamento e pela percepção de narrativas sugeridas ou inventadas numa espécie de jogo das escondidas com o não dito.

Nas imagens criadas por Rui Calçada Bastos existe quase sempre essa linha ténue onde a metáfora se descobre e em que se instaura, mais do que a dúvida (sobre a natureza do visto), a inquietiude do reconhecimento, a surpresa dos encontros, o desacerto dos enredos.

"Avalon" corresponde a esta ideia. Mais do que uma designação ou tentativa de proposição geográfica, trata se da recuperação de um conceito e do lugar mítico das tramas do ciclo Arturiano, de um território tão fantástico quanto enigmático, capaz de convocar a magia das tradições e ser sucessivamente reinventado pela literatura e artes visuais. Mas "Avalon" é aqui também um lugar de itinerários pessoais, melhor conseguido sempre que a construção das imagens se restringe ao essencial, estancando o tempo e potenciando o seu sentido.

No tríptico fotográfico que inicia o percurso, um coropo eleva se em suspensão. Não lhe vemos tronco ou rosto. Apenas pernas e pés enfiados em grandes e coloridas botas de borracha . Em baixo, uma poça de água enlameada. Na transgressão consentida pelo calçado aguça-se o desejo: o chapinhar na água a lembrar gestos de infância, as explosões incontidas de energia com ecos de Gene Kelly.

Apesar de repartido o salto, desdobrando o tempo em três fotografias, nunca se desfaz por completo a acção. Não vemos o arranque ou a poça estagnada depois da queda. Não sabemos sequer se corresponde a três momentos do mesmo salto. Apenas o movomento do corpo no ar, livre de constrições, e a tensão libertadora da queda. Tal como adiante, numa outra fotografia, sucede com o casaco preso ao tronco de uma árvore. Mas aí em Promisse, este outro adereço do corpo - casulo ou extensão desusada que o representa, apertado ao tronco como garrote de uma vida não cumprida, âncora da esperança em dias melhores - contorce-se na força aflitiva de uma prece que faz da natureza sua depositária. Uma espécie de projecção interior, encontrada e revista sob a lente do artista que se lhe acrescenta ao perspectivar o visto, prolongando a invisibilidade de um caminho no desalinho dos troncos da floresta. esse sentido é também trabalhado ( encenado) em A Video for a Photograph and a Photograph for a Video, peça constituida por uma fotografia de grandes dimensões e um vídeo que passao ao lado num pequeno écrã, numa narrativa que se desenrola a dois tempos, entre a espera (da figura femenina de costas na fotografia) e uma hipotética acção (lembrada, vivida, desejada), no diálogo entre suportes que questiona ainda a natureza das imagens e o papel do espectador.

O desdobrar continuo e desinquietante das imagens, mas sobretudo o impulso que a partir dai se desencadea no espectador na tentativa de reorganizar a trama que as liga, tem sido uma das estratégias melhor conseguidas no discurso de Rui Calçada Bastos. Em Walkabout, o espectador é compelido a seguir os passos ambíguos de um (mesmo) percurso que se desenrola entre imagems, entre descobertas e memórias, visto e "dejá vu". Um caminhar contínuo pelas ruas do campo e da cidade, como quem refaz o fio do pensamento, como quem segue os trilhos de uma identidade em construção, como quem avança numa estrada que sempre começa.

Ana Ruivo in Expresso Cartaz 1781