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Fifty - Fifty. (50/50) A duo show with Noé Sendas at Galeria Miguel Nabinho. Lisbon

A Galeria Miguel Nabinho apresenta a exposição Fifty-Fifty (50|50), com obras inéditas de Noé Sendas e Rui Calçada Bastos.
Construídas em simultâneo e em diferentes ateliers, as obras destes artistas são afinadas por cada um e pela ressonância que estabelecem com o trabalho do outro. A exposição procura olhar para uma partilha de experiências e inquietações, comuns à prática de ambos, mas afasta-se da ideia de uma autoria conjunta.

O trabalho de Noé Sendas e de Rui Calçada Bastos surge, em paralelo, de um reconhecimento e de uma efabulação do real. Em ambos existe um olhar que se foca no que os rodeia, onde objectos, situações e imagens se modificam de forma poética e transcendem a sua condição de base.
Com o pretexto de ir à cave, entendida aqui como referência de um lugar interior e subconsciente mas, também, como o simples subsolo da galeria, o trabalho dos dois artistas surge de um encontro improvável, entre a memória e a transformação. E, centradas numa ideia de (im)permanência, as obras emanam uma inquietude que é, simultaneamente, irónica e melancólica.
Irónica, porque emprega materiais e situações concretas para desconstruir sentidos, usos e funcionamentos que são comuns, reinventando-os de modo inesperado e contraditório.
Melancólica, porque a ausência enunciada advém de um ajuste perdido. Sendo algo que assenta no que já passou mas, também, no sobressalto do que está por surgir.

Trabalhando com o pavimento que extraiu da sua própria casa, Noé Sendas constrói um grupo de obras onde se trava o decorrer de um qualquer acontecimento. Tudo aponta para um processo de mudança, onde o soalho se recorta e extrai do seu lugar de origem, onde o sobrado se empilha para ser arrumado e transportado, ou onde as tábuas se encostam temporariamente à parede. Mas, seja na resistência que contradiz o movimento, no entrave de um peso depositado, ou na descoberta de um uso inesperado, existe, no conjunto, uma reacção que inverte a leitura original das coisas. E percebe-se, também, a ausência da figura envolvida nesses actos. Uma figura retirada, que marca o hipotético abandono de quem se cansou de resistir.

Rui Calçada Bastos apropria-se de objectos comuns, que se reportam ao mundo da casa mas, também, ao mundo exterior. A forma como o autor os combina e como com eles cria novos sentidos, aponta, de igual modo, para uma ideia de desajuste e deslocação. Mas, contrariamente a Noé Sendas, este é um desajuste que não é ditado por reacção, surgindo antes como um desvio antecipado, de algo, ou de alguém que quer partir.
Quando o artista recupera a memória de uma antiga fotografia do Tibete, o que nos mostra é um caminho deserto, que nos leva para dentro da imagem, ou para fora do espaço da galeria. De igual forma, as molduras encontram-se vazias e a pedra segura uma carta que aguarda ser lida. Em todos os casos, o que emerge é, novamente, a melancolia de uma ausência.

O que em ambos vemos, é o resto de uma passagem que se encontra já vazia. Uma espécie de resquício rendido à gravidade e ao encontro com o chão, como numa cave, onde se depositam memórias à espera de serem reinventadas.

Sérgio Fazenda Rodrigues

 
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Fifty - Fifty. (50/50) A duo show with Noé Sendas at Galeria Miguel Nabinho. Lisbon

 
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Fifty - Fifty. (50/50) A duo show with Noé Sendas at Galeria Miguel Nabinho. Lisbon