Copyright ©2015 (Rui Calçada Bastos) All Rights Reserved

http://ruicalcadabastos.com/files/gimgs/th-36_Pausa_02.jpg
Pausa. 1995 Two video monitors, wooden structure, sleeping bag, presence of the artist 5 hours a day.

Boqueirão da Praia da Galé. Lisbon. Photograph by Mariana Viegas

Pausa

Boqueirão da Praia da Galé. Lisbon. 1995

Uma pausa como projecto de trabalho

No Boqueirão da Praia da Galé funciona uma extensão da galeria Monumental. É conhecida por Monumental II e deve a sua existência quer à graciosidade da proprietárias do edifício quer à persistência de um grupo de artistas jovens originários de um “atelier livre” em funcionamento na Escola António arroio e sob a direcção do artista Pedro Morais. Não se constituiram como grupo, não investiram na afirmação mediática de uma imagem. Mantêm uma discreção que vem certamente da filosofia de entendimento e intervenção no mundo, transmitida precisamente por Pedro Morais. Como que um desprendimento oriental, uma atitude que dá mais importância ao trabalho de reflexão e captação de pequenos momentos, pequenas imagens e coisas do mundo do que à criação de imagens espectaculares. Assim se instituem como uma terceira via (“invisível”) no panorama da actualidade. Drummond, Tropa, Massul, Marta Soares ou Rui Calçada Bastos fazem parte dos expositores deste espaço em ruínas.

Precisamente Rui Calçada Bastos está até hoje em descanso no referido local. O repouso pretende ser dado como total, quer dizer o artista encontra-se a dormir. Sobre um estrado toscamente construído, num saco cama, entre duas imagens vídeo fixas (à cabeça a planta dos pés, aos pés o rosto de olhos cerrados). À entrada, num papel, o artista dá a entender a razão desta paragem fazendo uma extensa lista de lugares que entre 1987 e 1994 percorreu: algumas cidades europeias, a Índia e Ceilão, parte da China. Uma viagem iniciática que vai prosseguir com nova viagem já na próxima semana. A disciplina que assim o põe a dormir em pleno dia, ao desabrigo de um espaço húmido e sujo, desabrigado e inseguro é evidentemente diversa da que se obtém de uma formação artística tradicional. Só para o ano decidiu retomar esses estudos regressando a Portugal. E tem outro projecto: a construção de objectos-escultóricos instalados de modo a metaforizar a ideia de abrigo: “um abrigo para os viajantes, tão simples e simbólico como este estrado onde estou agora deitado”. O tempo contemporâneo pode ser assim: construído à margem do tempo e da sua urgência.

João Pinharanda in Publico, 29 - 06 – 95. Lisboa

 
http://ruicalcadabastos.com/files/gimgs/th-36_305348_177284392366083_340713740_n.jpg
Pausa. 1995 Two video monitors, wooden structure, sleeping bag, presence of the artist 5 hours a day. Photograph by Mariana Viegas.