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A luz é uma coreografia involuntária

“À luz sincera do dia” é o título da primeira exposição individual de Rui Calçada Bastos no Museu de Arte Contemporânea de Elvas – Colecção António Cachola.
O artista explora diversas instâncias da paisagem urbana que nos aproximam de um olhar auto-referencial sobre a cidade.
Uma das obras, intitulada “Ghost”, é uma escultura efémera que foi construída numa das salas da exposição e será destruída no final desta, ficando o seu projecto como memória descritiva e documento da obra e das suas edificações, tanto passadas (já foi construída em Berlim, na exposição “Passagem de nível”, Galeria Invaliden1, Berlim) como futuras. Esta obra sinaliza uma relação temporal com a transitoriedade e a amnésia do quotidiano, à qual dificilmente resistimos.
A cidade é o campo de possibilidades que o artista indaga e observa sob um olhar aparentemente romântico, mas que não despreza o detalhe mais (in)significante, por vezes nos seus limites, como é o caso da série de fotografias “Untitled 2012 (Snow Dust)”, registadas no lago Mälaren, que atravessa a cidade de Estocolmo e se encontra com o mar Báltico. A luz e a dispersão de pequenos resíduos de neve convocam uma espécie de imaterialidade visual muito próxima das imagens cósmicas que conhecemos do universo da ciência. Por outro lado, estas imagens desenvolvem-se como uma sequência, o que denuncia o seu percurso no espaço da paisagem, que corresponde ao seu nomadismo urbano. Processo introspectivo (e auto-referencial) que vamos encontrar noutras obras da exposição, como por exemplo o vídeo “Passagem de nível” (2014), executado na cidade onde vive, Berlim. Contudo, estas imagens não pretendem localizar, e deste modo retratar, uma cidade específica, mas sim dar a ver ocorrências que fazem parte da cidade e que incorporámos de tal forma que já não afectam o nosso quotidiano.
Porém, enquanto obra de arte, é através do processo artístico do autor que ganham relevância e procuram no nosso olhar o protagonismo que o hábito lhes subtraiu, sendo recuperadas para uma cidade imaginária e ficcional que se materializa sob o olhar do artista.
Duas fotos a preto e branco, de dimensão média e interligadas como um díptico, Untitled Dyptich (2008), são o prenúncio desta linha de trabalho em que Rui Calçada Bastos propõe ao espectador uma espécie de teste à sua compreensão da imagem enquanto lugar que se transforma. Há uma diferença entre ambas que nos vai relacionar com o tempo e com sistemas racionais de organização da cidade. As imagens, enquanto díptico, propõem dois momentos, um antes e um depois da marcação das passadeiras para peões, mas há também uma mudança na própria imagem, que se torna mais gráfica e menos contrastada. A marcação da passagem de peões sobre o alcatrão negro do pavimento do cruzamento passa a denotar uma maior amplitude de meios-tons. O processo de gradação lumínica é semelhante ao que assiste as fotografias registadas no lago Mälaren, “Untitled 2012 (Snow Dust)”.

Se há aqui uma tendencial poética das imagens, esta confronta-se com uma escultura, “Ghost” (2014), constituída por uma parede que retém ainda a memória de uma escada. Uma pré-existência que nos relaciona com a actividade humana, onde a presença do movimento do corpo encontra a sua inscrição temporal e fragmentária. A escultura, que se materializa entre o desenho e a instalação no espaço da sala do museu, é simultaneamente um lugar paradoxal, não apenas pelo seu deslocamento simbólico mas também por ter na outra face o ecrã onde as imagens do vídeo “Passagem de nível” (2014) são projectadas. A relação entre estas situações urbanas e o que poderemos catalogar como pequenos “acidentes” quotidianos que incorporamos na nossa vivência, alguns fruto dos fenómenos naturais, alia-se a um secreto movimento da cidade, que concorre para nos fazer reencontrar um imaginário romântico, onde um rumor visual se cruza com uma construção sonora que envolve o espectador na narrativa entrecortada desta obra.
Neste contexto, uma obra sem título, “Untitled” (2013) introduz uma perspectiva contraditória na exposição, articulando e alterando a posição do suporte, o ecrã de plasma. Este é colocado sobre o chão da sala, na vertical, acentuando o movimento sistemático e repetitivo dos operários que montam um andaime nas traseiras de um prédio. Nada de especial ocorre durante uma tarefa que exige rigor, cuidado e atenção. É mais um momento banalizado de uma obra que está em progresso e faz parte da paisagem urbana com que lidamos diariamante. Não se conhece o lugar ou a cidade onde a acção se passa, contudo há uma métrica quase musical nesta acção que se desenvolve em torno de si mesma, como uma coreografia involuntária sem começo nem fim.
Aparentemente, Rui Calçada Bastos activa um movimento de deslocação do olhar e da nossa percepção sobre momentos concretos, em que a transitoriedade prevalece. Contudo, a auto-referencialidade pode tornar-se a presença mais ambígua: uma imagem austera de um homem visto de costas revela um momento íntimo, despudorado, mostrando o seu cabelo acabado de cortar disperso sobre o corpo coberto por uma camisa branca (tal como a parede na obra “Ghost”); esses restos de cabelo, essa roupagem do corpo, denunciam uma atitude tranquila, sincera e despojada de códigos convencionais da revelação dessa corporalidade que a si mesmo se representa como uma morfologia transformada que já é apenas registo. Como um espectro de si mesma.

João Silvério | Setembro 2014