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Fascínio desencantado

A nova individual de Rui Calçada Bastos desafia o espectador a fazer o impossivel; pensar as imagens da fotografia e do filme sem sacrificar o encantamento.

Fascinada, apaixonada, céptica, analítica. Assim se pode descrever a relação de Rui Calçada Bastos (Lisboa, 1971) com as formas de representação e experiência do real que a fotografia, o cinema e o vídeo trouxeram. Lembremos, só a titulo de exemplo, Casting Thoughts (2000) ou Quadrifoglio (2001 - 2002), onde as referências cinemáticas/cinematográficas não se limitavam a sinalizar um consumo ou interesse extra-artístico; eistiam, sobretudo, ao serviço de um subtil questionamento da condição do espectador, da auto-representação ou da alteridade.
A nova exposição do artista, The American Sunset, na Galeria Vera Cortês, aprofunda essa posição e de um modo mais radical: os trabalhos, realizados na Califórnia, despertam um fascínio e uma perturbação da consciência e do olhar. No vídeo If you`re going through hell, keep going, o movimento dos carros na noite de Los Angeles tem um efeito hipnótico, que a banda sonora torna progressivamente angustiante. Ouvem-se frases sobre este baile de volumes cromados: "Sou apenas uma pessoa normal", "Encontramo-nos na Disneylândia", "Quero ver esta cidade destruída pelo fogo", "Hoje as pessoas são como marionetas", Deixei me levar pelas fantasias e foi aí que as coisas se complicaram". Serão retiradas de um filme de David Lynch, de Tarantino? Talvez de romances noir? Não, pertecem a depoimentos de serial killers que um colega de residência do artosta português recolheu. Mas podiam ser de um vizinho, de um conhecido ou até de um familiar (nosso e, salvo as distâncias, de Rui Calçda Bastos)
Se o Inferno, a que o título alude existe entre e sob as imagens (sejam as do cinema ou do real), o artista desafia-nos, por momentos a mergulhar nas suas profundezas: em Night and Day, dois ecrãs mostram a frase "if you`re going through hell, keep going" inscrita num fiundo negro, deixando entrever luzes e carros em movimento. Até que a fotografia de uma autoestrada inacabada (outro motivo cinematográfico) sugere a interrupção ou o fim da vertigem. Haverá tempo para um esclaecimento dos sentidos? Pelo menos haverá a possibilidade, eis o que insinua outra fotografia: sentado num banco, o artista contempla o pôr-do-sol. Gesto solitário e tão banal quanto ferido: para ver (a partir do topo de uma montanha em Santa Monica), o corpo de Rui Calçada Bastos sujeita se o arame farpado que o envolve; e o espectador não sai isento do encontro com o gesto, como subliha a presença concreta do banco coberto de arame (a única escultura da exposição). Ver pode ser hoje uma experiência dolorosa e, inevitalmente, deceptiva. Na imagem que dá o título á exposição, decobrimos, enfim o pôr-do-sol, desfocado na superfície da fotografia, nítido no visor da câmara digital que aquela captou. Rui Calçada Bastos parece vestir a pele do crítico cultural, porventura desconfiado da digitalização da cultura, mas sabe que a representação da fotografia é tão autêmtica como a câmara de filmar. O cohecimento desse facto nao modera a desilusão e o pessimismo que atravessam The American Sunset. Da mesma forma que esses sentimentos não apagam a influência reluzente e vital do cinema, com os seus géneros, motivos, técnicas ou memórias.

José Marmeleira in Publico / Ipsilon. 11. January. 2013