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RUI CALÇADA BASTOS (Lisboa, 1971)

Rui C.B. vive e trabalha em Lisboa e Berlim. Frequentou as Escolas de Belas Artes do Porto e de Lisboa e a Escola Ar.Co, em Lisboa. Das duas residências de artistas, uma em Paris e outra em Berlim, a segunda seria duma grande importância para a fixação do seu trabalho em vídeo.
Participa em exposições colectivas desde 1998; a sua primeira individual, em 1994, é realizada no espaço do Boqueirão da Praia da Galé (Lisboa) onde, no ano seguinte, realiza Pausa, numa situação performativa associada a uma instalação vídeo: num ecrã, os pés do artista e diante dele o próprio artista estendido dentro de um saco cama, dormindo algumas horas por dia. Esta duplicação física e a presença do artista como actor vai manter-se noutros trabalhos, o que não deixará de ter a ver com o forte substrato existencial pessoal, biográfico que alimenta a ideia de muitos deles.
Em Ten Years Looking Foward to See You (88/89), a acumulação de rostos conhecidos e desconhecidos cruzados fora de Portugal, que olham a câmara e portanto o artista, fazendo dele o centro diferido de toda a sequência consolida as suas ideias sobre o trabalho neste suporte.
A dualidade é uma fórmula restrita, embora multiplicável e está necessariamente presente no balanço a que é frequentemente impelido perante uma relação amorosa, feliz ou frustrada. No trabalho Ambos (2002), as narrativas separadas dos seus avós, um casal que está junto há 66 anos, e a forma como permitem pesar um percurso a dois, era encenada através de um dispositivo pelo qual uma cama de casal alojava num dos topos, um ecrã com passagem de um vídeo em que dá a ver uma janela de comboio dividida em duas partes que correm em direcções contrárias. Por baixo da cama as versões dele e dela em audio, vindas de pontos diferentes e entrecruzadas. A metáfora da dualidade e desencontro espaciais é também a que utiliza em Both of Us (2002), em que os rostos dele (o próprio artista) e dela se focam e desfocam no nevoeiro de um duche em momentos progressivamente opostos.
Num outro vídeo, It’s not Romantic to Be Romantic, dois ecrãs grandes confrontam um espaço de jardim e uma vista de mar com uma mulher semi-emersa, duas velocidades de imagem, interrupção bipolar das imagens e a constante indecisão entre o que escolher olhar. Over Exposed (20039 e Loneliness Comes from One (2003) são instalações formalmente próximas: peças escuras de vestuário criam o lugar de um ser fantasma numa parede e lâmpadas de luz branca parecem tornar-se o lugar da linguagem, falada no primeiro caso (ouve-se uma gravação em que se repete “leave me alone, I don’t have anything else to show you, I think I’m over exposed”), escrita no segundo caso (a frase que dá o nome à obra). Mais uma vez, a solidão dita ao outro, a negação da própria dualidade afirmada estruturam o sentido e os dispositivos construídos.
O som já tinha sido utilizado na instalação Entrance/Exit (1999) em que, diante de um espelho se ouvia o som do mesmo a partir-se e na instalação feita na Bienal da Maia (Untitled, 1999) em que o som dos seus passos a caminhar se somava ao mesmo esforço irruptivo da luz por entre um obstáculo semi-permeável encontrado em obras posteriores.
Em fotografias de instalações com um carácter mais espacial, a dualidade estrutural, a luz, as palavras aforísticas, a confidência dos acidentes de percurso, aspectos dispersos noutras obras, voltam surgir.
Em Work Table (2002-3) dois tripés que suportam lâmpadas fluorescentes com palavras escritas são colocados em desequilíbrio com o empilhamento de cassetes de vídeo (uma para cada mês) sob os pés de um dos lados. Em Studio Accident (2003), é também o desequilíbrio (estantes a cair) que parece protagonizar uma outra situação de ateliê fotografada. Na última edição do Prémio União Latina (2005), o ateliê serve aliás como recurso para uma listagem exaustiva de tudo o que nele existe, com a transformação das palavras num filme que as organiza plasticamente.
Uma série de quatro vídeos realizada entre 2001 e 2002, que reuniu sob o nome de Quadrifoglio, desenvolve aspectos fulcrais da sua linguagem videográfica. Em Personal Like Everyone Else (2001-2), o actor sai de si próprio numa descolagem física fictícia e inverosímil que dá forma ao princípio da auto-análise, do duplo, do desdobramento de personalidade, de um sono ou morte momentâneos e do regresso ao corpo. A dualidade a partir do sujeito volta a ter expressão em O Caso, uma situação de perseguição imaginária em que o sujeito se esconde a espreitar pelo visor duma porta apressadamente fechada.; e em Rendez-vous, com a confusão de papéis entre o homem e a mulher na recepção de uma carta.
O ambiente cinematográfico destes trabalhos (musicado, narrativo, enigmático nas sucessões) tem um dos seus momentos altos em Ascenseur, numa sequência simples de um velho elevador que sobe e com ele um personagem anónimo, em direcção à luz difusa e mais forte no cimo.
Num outro tipo de percurso, a viagem de comboio, encontrou a ocasião de captar imagens duma mulher bela de olhos fechados. Casting Thoughts (2000) dá-nos um acesso rítmico a zonas de um rosto, em função de batidas de coração audíveis e como se um pára-brisas estivesse accionado sobre uma película transparente que nos separa do seu espaço de sono ou pensamento.
Mais recentemente, Left(L)overs (2004) figura de forma metafórica e coreográfica, a tentativa de libertação de memórias: vemos uma personagem masculina, de costas, levantando a poeira do casaco ao bater num e noutro ombros, sendo o gesto acompanhado de um som semelhante ao de um disparo.
Podemos supor que são memórias o que guarda o outro homem da mala de espelho em The Mirror Suitecase Man (2004). Mas neste caso, a inversão funcional da mala, coloca no exterior dela (na reflexão da imagem) os principais acontecimentos.

Leonor Nazaré
Densidade Relativa/ Relative Density, CAM 2005 (catálogo)