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Rui Calçada Bastos
The Mirror Suitcase Man, 2004
DVD, edição de 3
Duração: 4’30”
N.º inv.: IM21

Chega um homem que pega numa mala feita de espelhos e que é deixada no meio de um campo deserto. Nunca lhe vemos a cara, nem a ele nem a outro a quem, no final, entrega a mala, como na passagem de um testemunho.
Concentramos toda a tenção naquela mala em que a cidade, as pessoas, os transportes, as árvores, as ruas se espelham. Chegadas e partidas de comboio ou de metro, portas que se fecham, escadas que se sobem, cais de estações, carros que passam – a deambulação do personagem da mala é pausada, parada por vezes, mas variada, e funciona como registo dos movimentos anónimos na cidade. Como se o tempo da passagem, da deslocação fosse a principal memória que fica desses cruzamentos não intencionais, no tecido urbano. O slowmotion ocasional, um flash branco ou um corte entre imagens, o som de uma máquina de escrever, a música de órgão, algumas frases quase imperceptíveis em francês, o som de um vinil estragado, o grão de uma imagem a preto e branco já antiga contribuem para um ambiente globalmente nebuloso e perdido no tempo, praticamente onírico e sem coordenadas.
A mala abre um buraco no real e cria no seu espaço restrito um abismo, um ecrã, um microcosmo em que parcelas desse real passam de verídicas a fictícias, de extensas a recortadas. Os planos oblíquos, os terrenos ascendentes, a escada em caracol, os balouços, o vento nas árvores, a posição ortogonal da mala em relação aos fundos de rua que nela se vêem, os pontos de vista múltiplos, em contrapicado, em profundidade, em grande plano, em contraposição e inversão no espelho, acentuam essa maleabilidade e irrealidade espaciotemporais. A passagem de linhas de luz artificial pelos lugares de constituição da imagem é ainda outra forma de estabelecer intermitências perceptivas e uma espécie de mergulho inebriado na sua ilusão.
Com o rio e a berma, que surgem no final, refere-se a ideia de fronteira territorial a que a mala dá expressão, durante toda a sequência. A mão que a segura, o personagem formalmente vestido que a passeia têm a rigidez e constância necessárias à inevitável concentração na centralidade do objecto protagonista: uma mala que recusa a sua função interior trocando-a por uma exterior. A reflexão da cidade torna-se reflexão acerca da memória de percepção e acerca da verosimilhança do próprio real. No espaço da mala de espelho, nada se guarda e tudo se expõe; nesse sentido ela é uma antimatéria funcional, uma anti-imagem do real.

Leonor Nazaré

Densidade Relativa/ Relative Density, CAM 2005 (catálogo)