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Da Passagem de Algumas Coisas e Pessoas Através de um Breve Momento de Tempo

A questão é compreender o que já foi feito
e tudo o que está por fazer,
em vez de acrescentar mais ruínas ao velho mundo
dos espectáculos e memórias.
Guy Debord (1)

Movimento I (Deriva)

Os momentos de calma, contemplação, ou mesmo de pausa, são raros neste trabalho fílmico de Rui Calçada Bastos. Os protagonistas dos seus filmes encontram-se num estado de constante movimento: num comboio, num carro, ou caminhando por paisagens urbanas não-específicas e atravessando uma natureza igualmente incaracterística. A câmara capta as circunstâncias em pequenos fragmentos isolados, negando ao espectador um plano longo que possa servir de orientação. Calçada Bastos evita localizações reconhecíveis ou revestidas de significado. As suas cidades são intercambiáveis e servem apenas como pano de fundo para o desassossego dos protagonistas, que se movem através de localizações transitórias e intermédias sem qualquer peso específico ou identidade localizada – transportes públicos, estações ferroviárias, pontes –, justamente, os non-lieux, tal como descritos por Marc Augé (2). No centro dos seus filmes encontra-se o próprio movimento enquanto tal.

A combinação de movimento e de uma percepção fragmentada do meio assumem uma forma particularmente surpreendente em The Mirror Suitcase Man [O homem da mala de espelhos](2004). O protagonista deste filme a preto e branco é menos o homónimo Homem da Mala do que a sua mala inteiramente espelhada, que a câmara capta em close-ups, e que, por sua vez, mostra as localizações circundantes enquanto reflexos. De facto, o Homem da Mala surge como pouco mais do que a mão que leva a mala. Enquanto pessoa e participante no filme, é essencialmente incidental. A sua viagem através do espaço urbano também só emerge na imaginação do espectador. Em longos planos subjectivos, que se fundem uns nos outros a branco, ele permanece quase imóvel enquanto a câmara se foca na mala que balança ligeiramente e reflecte o que a circunda à medida que transeuntes, carros e eléctricos cruzam a superfície espelhada. Apenas nas cenas introdutória e final do filme chegamos de facto a ver o Homem da Mala em movimento. No início, este entra em cena e pega na mala que se encontra num prado florido. No fim, numa estrada de campo fora da cidade, entrega o objecto espelhado a um novo transportador que continua a viagem. Curiosamente, Calçada Bastos não escolheu uma localização urbana como fundo para estas cenas, ao invés começando e terminando o filme num ambiente natural e quase idílico. As cenas intermédias mostram fragmentos de estações ferroviárias, praças vazias e jardins sombrios e tristes.(3)

O filme condensa planos consecutivos dos mais variados bairros numa jornada atmosférica, numa deriva através da paisagem urbana. Vagabundear e cirandar é um motivo central nos filmes de Calçada Bastos. Os seus protagonistas andam à deriva pelo espaço urbano; os seus caminhos não conduzem a qualquer destino, constituindo eles mesmos o próprio enredo. Guy Debord define a deriva como um "modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: uma técnica de passagem rápida através de diferentes ambiências."(4)

A referência à terminologia situacionista faz, aqui, todo o sentido, dado que mesmo o conceito básico do filme – a visão alienada da cidade através dos reflexos fragmentados da mala espelhada – assemelha-se a uma experiência psicogeográfica: "A psicogeografia poderia tomar para si o estudo das leis precisas e efeitos específicos do ambiente geográfico, conscientemente organizados ou não, sobre as emoções e comportamentos dos indivíduos. O encantadoramente vago adjectivo ‘psicogeográfico’ pode aplicar-se às descobertas deste tipo de investigação, à sua influência nos sentimentos humanos e, de modo mais geral, a qualquer situação ou conduta que pareça reflectir esse mesmo espírito de descoberta."(5)

Uma abordagem semelhante e experimentalmente distanciada a uma cidade encontra-se na instalação vídeo de Calçada Bastos Soundscape or Attempt to Reproduce the Soundscape of the Day Before [Paisagem sonora ou tentativa de reproduzir a paisagem sonora do dia anterior] (2007). O filme mostra um homem que arrasta uma frigideira de tamanho desproporcionado atrás de si enquanto caminha através de uma cidade. O seu percurso condu-lo por ruelas abandonadas, locais de construção abandonados e espaços abertos indefinidos, através de pontes e cais, sempre acompanhado pelo barulho do pesado objecto metálico. A percepção da cidade é alterada não visualmente, mas auditivamente. Uma vez mais, o trabalho de câmara limita-se às mais não-específicas perspectivas, sem qualquer fiada de casas ao longo de uma rua a que surgir no plano. O conceito performativo básico do filme relembra, de novo, uma experiência psicogeográfica. A frigideira torna-se num instrumento não só no sentido musical: funciona também como ferramenta de alienação e força o protagonista a perceber a cidade de um modo novo e não familiar durante a sua jornada.

Se a mala é ela própria o protagonista em Mirror Suitcase Man, em Soundscape a frigideira mantém-se na qualidade de adereço. A atenção do espectador é dirigida para o jovem que arrasta a enorme frigideira atrás de si rapidamente, mas sem pressa, causando por vezes um som seco, que reverbera ocasionalmente pelas paredes dos diversos edifícios. A sua atitude lacónica empresta à história um elemento de comédia absurda que a separa claramente da melancolia de Mirror Suitcase Man. Calçada Bastos acentua o motivo do vagabundear ao incluir o filme num contexto de instalação. Soundscape passa num pequeno monitor montado num trolley, juntamente com colunas e um leitor DVD. O uso deliberado deste equipamento ultrapassado lembra os produtos sortidos de um vendedor ambulante ou os pertences de um sem-abrigo, empilhados num carrinho de compras.

Movimento II (Si)

O próprio artista surge como actor em Mirror Suitcase Man e Soundscape, assim como na maioria dos seus filmes. Por outro lado, as duas cidades onde os filmes foram realizados relacionam-se intimamente com a biografia de Calçada Bastos. Mirror Suitcase Man teve origem em Berlim, onde o artista reside desde há dez anos. (6) Soundscape foi filmado no antigo território português de Macau, onde o artista viveu durante dez anos enquanto jovem. O duplo papel de realizador e actor não é incomum no mundo fílmico, mas aí não tem impacto na recepção dos filmes. Porém, no contexto da arte vídeo, o papel do artista enquanto actor assume um carácter essencialmente performativo. Nos filmes de Calçada Bastos, o aspecto performativo está intimamente ligado a um nível auto-reflexivo.

O ponto de partida para os seus filmes auto-referenciais e, simultaneamente, o ponto de partida do seu trabalho fílmico em geral, é a instalação vídeo em dois canais Ten Years Looking Forward To See You [Dez anos ansiando por te ver](1989-99). A instalação consiste de projecções que se opõem nas quais, à vez, se vêem pessoas que olham a câmara de frente. Não existe qualquer narrativa comum ou contexto temporal partilhado entre as cenas. As gravações mostram pessoas de diferentes países, culturas e classes. O início deste longo período de produção coincide com a compra da sua primeira câmara; o fim corresponde ao seu regresso a Macau. “Ao regressar a Portugal, depois de viver dez anos em Macau, quis utilizar o material filmado durante esses dez anos. Por isso, pensei que a única coisa em comum em todas essas gravações vídeo (…) eram pessoas a olhar para mim. Podemos observar uma subtil diferença na cumplicidade entre os diferentes olhares (…). Deste modo, trata-se de uma peça com um certo ritmo, determinado pelo tempo que as pessoas demoram a olhar para mim. DE certo modo é uma espécie de auto-retrato, através do modo dos outros me olharem.”(7) Com Ten Years Looking Forward To See You, no início mesmo da sua obra fílmica, o artista chega a uma reinterpretação radical do género do auto-retrato, no qual o autor só indirectamente entra na imagem através dos olhos dos seus objectos cinemáticos e, assim, é reflectido no seu papel de cineasta. O tema do desassossegado vagabundear também está implícito aqui. As sequências de filme que resultam dos mais variados lugares combinam-se num diário de viagem, num destilar de todas as viagens do artista, próximas ou longínquas, durante o período de dez anos de desenvolvimento.

A vídeo performance Pausa, que Calçada Bastos realizou em 1995 durante os seus estudos de arte em Lisboa, pode ser lido enquanto complemento ao seu primeiro trabalho de monta. Nos extremos de uma longa plataforma feita de paletes de madeira encontram-se dois monitores com os ecrãs face a face. Um monitor mostra o rosto do artista, de olhos fechados; o outro mostra os seus pés. Entre os dois, num saco-cama, encontra-se o próprio artista, rosto voltado para o monitor com os pés e pés voltados para o monitor com o seu rosto. O aspecto performativo permanece exterior à parte fílmica da instalação, tornando singular esta peça inicial no conjunto da obra de Calçada Bastos. Mas mesmo aqui, o motivo de vagabundear é aflorado. O modo provisório das circunstâncias do sono não deixa de reflectir a situação de vida do próprio artista e as suas viagens de ida e regresso entre Macau e Portugal.

A seguir, o artista surge em Quadrifoglio (2001/02), um filme em episódios que difere consideravelmente do seu trabalho anterior nas suas referências cinemáticas e estrutura narrativa. O filme consiste de quatro esboços curtos e melancolicamente surreais no seio dos quais parecem estar comprimidos enredos fílmicos completos. "Agrada-me a ideia de construir um ‘excerto de um filme’, de apresentar apenas um seu pedaço, quase como se se assistisse apenas a parte de um filme, desconhecendo o antes e o depois,"(8) eis como Calçada Bastos explica a sua estratégia de compressão narrativa. Nas cenas a preto e branco, o protagonista move-se entre o mundo interior e exterior, entre identidade e duplicação, entre si e não-si. Logo na primeira parte, Personally Like Everyone Else [Pessoalmente como toda a gente], sai de si e o seu doppelganger aparicional contempla o outro si com um espanto irritado. Através deste breve momento de duplicação cinemática, de saída de si mesmo, Calçada Bastos consegue criar uma surpreendente imagem de auto- reflexão que falha no estabelecimento de identidade: Je est un autre.

Uma implementação muito poética de auto-reflexão e dissolução de fronteiras no meio fílmico pode encontrar-se em Last Evidence of the Drowning of the One Left with Thoughts of Dissolution and Gloom [Última prova do afogamento de alguém com pensamentos de dissolução e trevas] (2005). A sombra do artista na margem surge numa superfície de água em calmo movimento, como se o sol tivesse de súbito perfurado as nuvens, a sua luz fazendo manifestar as sombras. A sombra dissolve-se lentamente na água e é coberta com reflexos solares gerados digitalmente, sob as quais também a água acaba por desaparecer. Depois da construção do si através dos olhos dos outros em Ten Years Looking Forward to See You e da sua duplicação sonâmbula em Quadrifoglio, aqui a já sombria noção de si dissolve-se derradeiramente.

Se Last Evidence continua Quadrifoglio em termos de conteúdo e prossegue a narrativa poética e surreal, Calçada Bastos entra num novo território formal com o seu trabalho. Pela primeira vez, o artista substitui o clássico formato 4:3 por uma projecção 16:9 alongada, embora trocando a convencional posição horizontal por uma posição vertical de modo a que a silhueta recortada na água surge gigantescamente ampliada. O curto arco de suspense, da superfície vazia da água, até à aparição da sombra e à sua dissolução, tem por fundo uma composição sonora electrónica que amplifica o efeito das imagens e acrescenta um nível adicional e autónomo ao filme. Sons sonâmbulos de natureza similar haviam já acompanhado Quadrifoglio e Mirror Suitcase Man, apesar de, nestas duas peças, não terem origem no próprio artista. Com Last Evidence Calçada Bastos começa também a encarregar-se da edição de som dos seus filmes.

A abordagem experimental ao meio fílmico, que é característica do trabalho de Calçada Bastos desde o início, é também evidente em Studio Contents [Conteúdo de atelier], datada do mesmo ano. Mais uma vez, a peça lida com a auto-reflexão do artista, apesar do enfoque já não ser sobre as questões existenciais do si e da identidade, mas sobre a fragilidade física da existência artística. Antes de sair do eu primeiro atelier em Berlim, Calçada Bastos fez uma listagem exaustiva de todas as coisas que nele se encontravam. O filme incorpora a lista sob a forma de texto juxtaposto. "No ecrã, sobrepus cada objecto (ou melhor, cada palavra que se refere a cada objecto) num obsessivo inventário de pertences. Tal constitui uma metáfora de alguém que tenta guardar coisas numa caixa, uma sobre as outras, até que esta fica tão cheia que só é possível saber a identidade dos objectos através da voz descritiva que acompanha o vídeo. Com esta sobreposição e combinação de som e imagem, tentei recriar um espaço mental transportável e resistente ao tempo.” (9)
Studio Contents relaciona-se com a série fotográfica All I Had [Tudo o que tinha], iniciada em 2002, na qual, antes de deixar o seu atelier, o artista documentou os seus parcos haveres através de uma fotografia. E, por sua vez, esta série relaciona-se com a performance vídeo inicial Pausa, que pela primeira vez abordara a sua existência quase vagabunda. Studio Contents centra-se na instabilidade, irrequietude e incerteza material da existência nómada do artista com uma sobriedade quase burocrática. Este inventário lacónico e desapaixonado apresenta momentos de humor dirigido contra si mesmo, listando arbitrariamente "um maço vazio de Luckies”, “uma mala de espelhos” e “uma carta da minha ex-namorada por abrir”. Calçada Bastos não se interessa no aspecto nómada da sua vida num sentido existencial, outrossim enquanto parte das condições de produção sob as quais o seu trabalho é criado. Sempre que aborda esta qualidade nómada nos seus filmes e instalações vídeo, reflecte acerca do seu papel de artista, ou acerca das condições de produção artística. A apresentação de Soundscape num trolley refere-se à natureza do trabalho enquanto produto móvel, que migra de feira de arte a Bienal e a colecção de museu. A diferenciação entre o nomadismo, a quase-vagabundagem e a deriva é essencial para a compreensão da obra fílmica de Calçada Bastos. "A condição do nómada é apenas uma condição; ser nómada não é em si o tema. Sucede é que trabalho quando viajo, mas não trabalho acerca do viajar. A peça A video for a photograph {Um vídeo para uma fotografia] é uma excepção, muito ligada ao tipo de cinema de Jim Jarmusch (…), creio que a ideia de movimento é o mais importante" . (10)

A atitude lacónica de Studio Contents, substituindo o ambiente surreal-poético dos primeiros filmes, permanece decisiva nos filmes seguintes. A visão do mundo de Calçada Bastos através da câmara torna-se mais distante e directa, relembrando a estética documental de Ten Years Looking Forward to See You. Com Self-portrait while Thinking [Auto-retrato a pensar](2007) faz referência ao seu inicial auto-retrato indirecto. Desta vez, o artista aponta a câmara a si mesmo de forma directa. Filma-se enquanto pensa concentradamente, mostrando à câmara o seu tique nervoso, que se manifesta num franzir e levantar das sobrancelhas. O efeito desarmante destas expressões faciais funciona em contraste directo com a posição clínica da câmara, o que é acentuado pela série de quinze auto-retratos desenhados que acompanham o filme.

Movimento III (Som)

Tal como em Ten Years Looking Forward to See You Calçada Bastos abandona qualquer som em Self-portrait. “A ausência de som em Self-portrait while Thinking é para mim de uma extrema importância, pois permite que o espectador se concentre apenas na acção que decorre no ecrã (o tique nervoso).” (11) Os dois filmes não são apenas mudos; ao invés, o uso específico do silêncio pode ser interpretado como som negativo, como versão radical das paisagens sonoras cuidadosamente compostas que caracterizam todos os filmes do artista.

Calçada Bastos trabalho com som no sentido mais lato. A sua paleta vai do puro silêncio dos auto-retratos às composições electrónicas de Last Evidence, às gravações não misturadas de Soundscape, ao uso de ruído estático em All That Glitters [Tudo o que brilha](2010). Só por si, o título Soundscape or Attempt to reproduce the soundscape of the day before revela a importância do som para o filme, que também forneceu o ímpeto decisivo para a sua criação. (12) Aqui, o artista usa o clangor rítmico e musical da frigideira tal como gravado durante a filmagem e sem edição adicional. A despeito da diversidade de estilos sonoros, é possível encontrar nos seus filmes uma estreita relação entre som e movimento. Os sons de tráfego, comboios, aviões ou passos são geralmente suplementados por sons gerados electronicamente. Ouve-se um gongo electrónico no início de Few Steps [Alguns passos](2010), que depois se repete várias vezes. A sua reverberação soa sobre o ruído de fundo do tráfego automóvel e do som dos passos no asfalto, que forma um terceiro nível sonoro e suporta as referências aos filmes de gangsters clássicos, ao mesmo tempo que preenche uma função rítmico-musical.

If You‘re Going Through Hell, Keep Going [Se estás a passar pelo inferno, continua em frente](2011) opera também com múltiplos níveis de som. O filme mostra uma interminável fila de carros numa auto-estrada de quatro faixas à medida que avançam pela noite, por vezes velozmente, outras vezes lentamente. A câmara encontra-se montada num carro, captando a ultrapassagem e os veículos ultrapassados à luz dos seus faróis da frente a partir da janela lateral. Os condutores mal são visíveis na escuridão. O ruído do próprio tráfego é empurrado para o fundo, enquanto um escuro fragmento melódico toca em loop contínuo. Ouvem-se vozes no primeiro plano, as suas enunciações ocorrendo fora de qualquer contexto comum. Funcionam como as vozes dos condutores que falam consigo próprios nos carros passam e parecem relacionar-se com as suas situações: "I'm a young man in a car about myself", "This guy is just a businessman, going somewhere". Em contraste, outras frases são perturbadoras ou mesmo ameaçadoras. "They not gonna get into your car", "This nation, this country, is founded on violence", "I'd like to see the whole city burned down". O espectador não consegue deixar de sentir que a auto-estrada é povoada por psicopatas. (13)

Com If You‘re Going Through Hell, Keep Going Calçada Bastos cria um elo com os filmes da sua fase surreal e poética, embora voltando o tema da deriva urbana para o abismo e eliminando o seu carácter jocoso. Este regresso ao surreal é já reconhecível em Events - Life in a Bush of Ghosts [Eventos – Vida num bosque de fantasmas](2008). Também aqui, o artista se preocupa com o movimento urbano, não se focando nos transportes ou nas pessoas, mas no carácter fantasmagórico dos objectos que povoam as ruas. Filma portas de garagem que se fecham sem qualquer intervenção visível, postes que emergem do chão, entradas para o subsolo urbano ocultas, que se abrem como por magia, luzes que iluminam peculiarmente as facadas e pavimentos nocturnos: uma deriva urbana do mundo material. A história não é construída como em filmes anteriores. Ao invés, o artista trabalha numa abordagem quase documental. "Vejo as cidades como um grande atelier ¬– onde podemos trabalhar com os diversos materiais disponíveis."(14) No entanto, Calçada Bastos nunca perde o olho para aquilo que é estranho e insondável. E, assim, a sua câmara vai tornando visível a irrealidade e surrealidade dos movimentos urbanos.

(1) Guy Debord, banda sonora de Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps (1959), tradução inglesa Ken Knabb in http://www.bopsecrets.org/SI/debord.films/passage.htm (accesso a 1 de Fevereiro February de 2013) [NT: tradução portuguesesa para este ensaio].

(2) “Clearly the word ‘non-place’ designates two complementary but distinct realities: spaces formed in relation to certain ends (transport, transit, commerce, leisure), and the relation that individuals have with this spaces [“A palavra não-espaço designa claramente duas realidades complementares mas distintas: espaços criados em função de certos fins (transporte, trânsito, comércio, lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços]”. Marc Augé: Non-places. Introduction to an Anthropology of Supermodernity, trans. John Howe (London-New York 1995), p. 94 [NT: tradução portuguesa para este ensaio]

(3) A dicotomia entre paisagem urbana e natureza é um tema recorrente nos filmes de Calçada Bastos. Quadriofoglio (2001/02) já situa cenas entre situações urbanas – elevadores e apartamentos – e uma área rural. O princípio é particularmente evidente na instalação em dois canais Walkabout (2006), com um ecrã mostrando uma caminhada através da cidade e o outro uma caminhada no campo.

(4) “[...] mode of experimental behavior linked to the conditions of urban society: a technique of rapid passage through varied ambiances“. Guy Debord, »Definitions«, Internationale Situationniste #1 (Paris, Junho de 1958), tradução de Ken Knabb in http://www.cddc.vt.edu/sionline/si/definitions.html (acesso a 1 de Fevereiro de 2013). [NT: tradução portuguesa para este ensaio].

(5) “Psychogeography could set for itself the study of the precise laws and specific effects of the geographical environment, whether consciously organized or not, on the emotions and behavior of individuals. The charmingly vague adjective psychogeographical can be applied to the findings arrived at by this type of investigation, to their influence on human feelings, and more generally to any situation or conduct that seems to reflect the same spirit of discovery“. Guy Debord, »Introduction to a Critique of Urban Geography«, Les Lèvres Nues #6 (Paris, Setembro de 1955), tradução de Ken Knabb in http://www.cddc.vt.edu/sionline/presitu/geography.html (acesso a 1 de Fevereiro de 2013). [NT: tradução portuguesa para este ensaio].

(6) Em 2003, Rui Calçada Bastos recebeu uma bolsa para a Künstlerhaus Bethanien em Berlim. Após essa bolsa de um ano, permaneceu na cidade. Calçada Bastos faz uma referência velada aos seus primeiros anos no bairro berlinense de Kreuzberg em Mirror Suitcase Man: a Künstlerhaus pode ser vista por alguns segundos no fim de uma rua.

(7) Rui Calçada Bastos, email ao autor, 29 de Dezembro 29 de 2012

(8) Rui Calçada Bastos, email ao autor, 18 de Fevereiro de 2013

(9) Rui Calçada Bastos, »On Studio Contents (2005)«, http://www.ruicalcadabastos.com/index.php/video/studio-contents--2005/ (acesso em 20 Fevereiro de 2013).

(10) Rui Calçada Bastos, email ao autor, February 18, 2013. O trabalho a que Calçada Bastos aqui se refere é A video for a photograph / A photograph for a video [Vídeo para uma fotografia/Fotografia para um vídeo](2006).

(11) Rui Calçada Bastos, email ao autor, 18 de Fevereiro de 2013

(12) “Existem casos em que o som desencadeou a peça, tal como em Soundscape ou em Attempt to Reproduce the Sound of the Day Before.” Rui Calçada Bastos, email ao autor, 18 de Fevereiro de 2013.

(13) O filme foi realizado em colaboração com o autor Patrick Findeis, que Calçada Bastos conhecera durante a sua residência na Villa Aurora, em Pacific Palisades, Los Angeles. Findeis compilou o texto para a banda Sonora a partir de citações de conhecidos assassinos em série.

(14) Rui Calçada Bastos, email ao autor, 18 de Fevereiro de 18, 2013.

Markus Richter em As Far as I Can See de Rui Calçada Bastos