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The American Sunset reúne trabalhos de Rui Calçada Bastos criados no âmbito da sua residência californiana na Villa Aurora e obras que agora se apresentam pela primeira vez. A partir de um universo visual que se inscreve numa clara alusão e tradição cinematográficas, o autor parte do contexto particular da cidade dos anjos para se situar num plano que remete para um profundo questionamento
da actualidade.
No vídeo If you’re going through hell, keep going, assistimos a um fluxo ininterrupto de carros que se vão ultrapassando numa proximidade alienante, sendo que a orquestração desse movimento mecânico é acompanhada de uma banda sonora onde se podem ouvir passagens e frases recolhidas por Patrick Findeis – colega de residência de Calçada Bastos – de citações e testemunhos avulsos de assassinos em série. Um segundo vídeo utiliza essa mesma frase como uma espécie de máscara que só deixa entrever a passagem dos carros e dos clarões produzidos pelas suas luzes, assim densificando o ambiente de fechamento de uma situação
em que o espectador é tornado um voyeur involuntário. Torna-se claro, então, que a incoerência narrativa das frases ouvidas, a sequência claustrofóbica dos carros numa viagem sem destino definido e o propositado balizamento da frase do título da obra no modo como perceptivamente somos obrigados a olhar esse movimento contínuo são elementos constitutivos de um desconforto procurado, de um desconforto conceptualmente materializado pelo autor.
As fotografias que fazem parte do projecto definem igualmente um território de estranha e paradoxal inquietação. Uma estrada que acaba no meio de nada, as
mãos cruzadas de um idoso apoiadas num computador portátil, são representações que remetem para uma temporalidade descontínua, para um lapso no
espaço e no tempo que não sabemos se propositado, acidental ou permanente.
Numa terceira imagem, o paradigma da fugacidade temporal, o pôr do sol, é captado pelo ecrã de uma câmara fotográfica digital, sendo que a definição da imagem se apreende melhor aí do que na pretensa realidade, que na fotografia se
encontra desfocada. Neste caminho para a escuridão estamos condenados a perceber a realidade por meios tecnologicamente assistidos. Esta parece ser a nossa
condição actual: a primazia de um mundo digitalizado sobrepõe-se à experiência.
Porque a experiência, para Calçada Bastos, erige-se a partir da limitação de um entendimento livre e esclarecido daquilo que nos rodeia. Esta é a conclusão a retirar da última imagem da exposição, um auto-retrato em que o artista se
senta num banco a contemplar um pôr do sol. Nesta imagem irrompe um elemento disruptivo, pois o personagem está estranhamente envolto em arame farpado; paradoxo visual que se torna mais evidente pela presença no espaço da exposição do banco com o arame farpado.
Sem tornar a sua proposta num comentário literal ao Zeitgeist contemporâneo, o artista prefere manter uma ambiguidade que deixa transparecer um pessimismo primordial. Olhar sem ver, experimentar sem sentir, vive-se aqui um estado de
anestesia perceptiva, um hiato na compreensão do mundo. Por desistência própria ou por imposição exterior. À espera do fim de uma longa noite que se avizinha.

Miguel von Hafe Perez. Novembro 2012