SEGUNDO SONO - CASA DA CERCA 2026
The exhibition begins with what would usually remain outside painting: a cloth used in the studio. Before any landscape, before any horizon, before any recognisable image, Rui Calçada Bastos places us before an element that accompanied the making of the work without being intended to be seen. There is a quiet displace- ment in this gesture: what once served a purpose and remained at the margins now exists as a heightened presence. Entitled Pintura [Painting], the work is no longer merely a residue or a tool; it becomes a kind of primal painting — the place where what the work does not show, yet is also made of, has settled.
From this opening gesture, Second Sleep unfolds as a path through images, objects and forms that seem to exist in a state of transition. Nothing appears entirely stable: landscape, matter and image remain on a threshold, between what appears and what is still changing. Across painting, sculpture, drawing, photography and sound, the exhibition draws near to an uncertain time, in which each work seems to come to rest only briefly before moving again. The works are presented not as certainties but as possibilities: provisional forms of thought in space.
There is, in this movement, a precise relation to slowness. Rui Calçada Bastos speaks of painting as a practice that requires
time: not only to make, but to see; not only to guide the image, but to recognise what the image itself allows. Letting things happen does not mean relinquishing decision; it means accepting that form can also be found when something slips beyond control. This sense of duration runs through the entire exhibition: it is present in the painted surfaces and extends into the objects, which likewise ask for an attentive, unhurried gaze.
Travel runs through these works like a discreet line. It insinuates itself into the tables that fold, suitcases and structures that seem able to close or move elsewhere, but also by the intervals between the works. It returns in mountains and horizons, in images crossed by falling light and night, as though each land- scape still held the possibility of another path.
In Mendigos e Altivos [Proud Beggars], the reference to Albert Cossery gives a particular dimension to this relation to renunciation. The work invokes not a social condition but a form of freedom: a refusal to turn everything into possession, conquest or accumulation. Within this field, O segredo não é levar a montanha inteira [The Secret Is Not to Carry the Whole Mountain] appears as a silent phrase along the path. It does not determine a reading, but leaves open a simple intuition: to cross without possessing; to pass through a landscape without turning it into a burden.
Perhaps Second Sleep approaches this kind of detach- ment. Not an abandonment of the body, but a displaced, slower attentiveness. A second sleep: already after the first fall, already within another light. Here, the image is not immediately given.
It emerges as a crossing: never arriving all at once, never allowing itself to be fully fixed.
At the end, Ladakh – Tibete Indiano (Ladakh, Indian Tibet), a photograph made in 1991 during a journey to Indian Tibet, does not close the path; it returns it to its beginning. The image becomes an open-ended return, returning to the exhibition one final form of movement. In response to a fourteen-page letter, Pedro Morais replied to Rui Calçada Bastos with a single sentence: “Do not dwell for more than one night in the same place.” Perhaps Second Sleep inhabits precisely this interval: between what we pass through and what we do not carry with us, allowing wonder to find us along the way.
Cláudia Ramos
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A exposição começa com aquilo que normalmente ficaria fora da pintura: um pano usado no trabalho de atelier. Antes de qualquer paisagem, antes de qualquer horizonte, antes de qualquer imagem reconhecível, Rui Calçada Bastos coloca-nos diante de um elemento que acompanhou o fazer sem se destinar a ser visto. Há neste gesto uma deslocação silenciosa: aquilo que servia e per- manecia à margem existe agora como presença elevada. Intitulada Pintura, a obra deixa de ser apenas resíduo ou instrumento; torna-se uma espécie de pintura primeira, lugar onde se depositou aquilo que a obra não mostra, mas de que também é feita.
A partir deste primeiro gesto, Segundo sono abre-se como um percurso entre imagens, objetos e formas que parecem existir num estado de passagem. Nada se apresenta de forma inteiramente estável: a paisagem, a matéria e a imagem perma- necem num limiar, entre aquilo que aparece e aquilo que ainda se transforma. Entre pintura, escultura, desenho, fotografia e som, a exposição aproxima-se de um tempo incerto, no qual cada obra parece pousar apenas por instantes antes de voltar a mover-se. As obras não se apresentam como certezas, mas como possibilidades: formas provisórias de um pensamento no espaço.
Há, neste movimento, uma relação precisa com a demora. Rui Calçada Bastos fala da pintura como uma prática que exige tempo: não apenas para fazer, mas para ver; não apenas para orientar, mas para reconhecer aquilo que a própria imagem permite. Deixar acontecer não significa abdicar da decisão; signifi- ca aceitar que a forma também se encontra quando alguma coisa escapa ao controlo. Essa demora atravessa toda a exposição: está nas superfícies pictóricas e prolonga-se nos objetos, que pedem também um olhar atento, sem pressa.
A viagem percorre estas obras como uma linha discreta. Insinua-se nas mesas que se dobram, nas malas, nas estruturas que parecem poder fechar-se ou mudar de lugar, mas também nos inter- valos entre as obras. Reaparece nas montanhas e nos horizontes, em imagens atravessadas pela queda da luz e pela noite, como se cada paisagem guardasse ainda a possibilidade de um outro caminho.
Em Mendigos e Altivos, a referência a Albert Cossery introduz uma dimensão particular desta relação com o despoja- mento. O que aqui se aproxima da exposição não é uma condição social, mas uma forma de liberdade: a recusa de transformar cada coisa em posse, conquista ou acumulação. É nesse campo que
O segredo não é levar a montanha inteira surge como uma frase silenciosa no interior do percurso. Não fixa uma leitura; deixa aberta uma intuição simples: atravessar sem possuir, passar por uma paisagem sem a transformar em peso.
É talvez desse desprendimento que Segundo sono se aproxima. Não do abandono do corpo, mas de uma atenção deslocada, mais lenta. Um segundo sono: já depois da primeira queda, já dentro de outra claridade. Aí, a imagem não se oferece de imediato. Surge como travessia: não chega toda de uma vez, nem se deixa fixar por inteiro.
No fim, Ladakh – Tibete Indiano, fotografia realizada em 1991 durante uma viagem ao Tibete indiano, não encerra o percur- so; devolve-o ao seu começo. A imagem surge no final como um regresso em aberto, devolvendo à exposição uma última forma de movimento. Em resposta a uma carta de catorze páginas, Pedro Morais escreveu a Rui Calçada Bastos com uma única frase: «Não habites mais que uma noite no mesmo sítio». Talvez Segundo sono habite precisamente esse intervalo: entre o que se atravessa e o que não se leva consigo, deixando que o espanto nos encontre pelo caminho.
Cláudia Ramos